Uma bomba de amor aqui

É possível que alguém,
Em momento inspirado,
Tenha muito desejado
Que se lançasse,
Sem receio, sem temor,
Sobre a humanidade,
Uma grande bomba de amor.
Assim, ó poetas!
Não haveria mortos
No leito de felicidade
De nós homens e mulheres!
Seríamos tantos os sem-dor,
Se caísse sobre a humanidade
Uma grande bomba de amor.

Sou um homem feliz?
“Y quiero que me perdonen
por este día los muertos de mi felicidad.”

[Ari Donato | Salvador / 2016]

Circunflexo

Eu não quero o teu corpo
Eu não quero a tua alma,
(Joaquim Cardozo)

Não terás o meu corpo;
As chagas que ele traz não entalham nomes.
Não terás a minha alma,
Mas deves senti-la. E verás sê-la insone.
Deixa quieto o meu ser (minha pessoa inviolável)!
Mas saibas que, no circunflexo,
Tudo te contorna, em elo inexorável.
Anseies, pois, pelo prazer que cabe a ti
No momento a dois.
Essa parte que não posso (eu mesmo) dar a mim.
Bom não quereres o meu corpo ou minha alma.
Que vivas então amada. Amante e bela, assim.

[Ari Donato | Salvador / 2014]

Cegueira

Cegos de uma cegueira secular!
Quando tiranos pensam em vocês?
[E quando pensaram?
Cegos de uma cegueira secular!
Quando ouvirão a história?
[E quando ouviram?
Cegos de uma cegueira secular!
Quando verão os grilhões?
[E quando viram?
Cegos de uma cegueira secular!
Quando separarão o joio?
[E quando separaram?
Cegos de uma cegueira secular!
Quando deixarão de se submeter?
[E quando deixaram?
Cegos de uma cegueira secular!
Quando olharão o horizonte?
[E quando olharam?
Cegos de uma cegueira secular!
Quando verão tudo já visto?
[E quando viram?
Cegos de uma cegueira secular!
Quando acordarão, ao fim do sonho?
[E quando acordaram?
Cegos de uma cegueira secular!
Talvez já vivam o ocaso – não percebem? –
Da liberdade de que tanto falam.

[Ari Donato | Salvador / 2016]