Cabra-cega

Cabra-cega!
Sempre nos jogos
De minha infância,
Não sei porquê,
Quando criança,
Vendavam-me os olhos,
E punham-se, meus amigos
A se esconder.

Tempo passado,
Cabra-cega sem amigos.
Caiu-me a venda,
Agarrei-me aos livros
Pois, sem incentivos
Para sair,
Fiquei entre letras,
Números e lendas.

Muitos, inocentes,
Brincam – olhar vendados!
A cair, a levantar,
Por si ou ajudados.
Não são inermes,
Têm defesa certa.
Mas são inertes,
São cabras-cegas.

Como no passado,
o escuro da venda.
Ouçam, estou vivo!
Quero ser livre!
Mas tolhem-me os passos
se grito alerta;
Cobrem-me os olhos.
Sou cabra-cega.

[Ari Donato | Salvador / 1974]