8.

Acordo em meio de um sono pesado.
Sem um magro tostão – sem nada ao meu lado.
Seguindo por um longo caminho onde se movem
– como se no Sorbone, na tela do cinema –
Cenas de um sonho com um só ator – em monólogo.
– Quero deixar a sala, não vejo o lanterninha!
Faltou energia e o projetor falha.
Um demorado “Oh!” pelo salão se espalha.
Vejo-me isolado, naquela retangular escuridão.
Que drama! Sem saber: sonhava ou vivia.

Desfaz-se a minha cama e um barco me conduz
Pelas águas irrequietas de um grande rio,
Até despencar do alto de uma cachoeira
E mergulhar nesta quadra vazia da vida.

Saltei do sono para o infindo buraco
Em que ora vivo – de prolongada letargia –
E aqui estou, a construir poesia que muitos –
Certamente quase todos – jamais vão ler um dia.

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Não mais

Soprou a brisa no fim da tarde
e trouxe-me um suave perfume.
Oh, doce sabor! Donde é que veio,
de qu’estrela, assim, inebriante?
Seria mesmo de tão distante?
Ah! De que astro volátil emana
este lauto e gracioso enleio,
ao qual, ávido, meu prazer se une?
Ora, do pano do teu vestido
desprende o perfume que me inflama.
Imagina, então, meu devaneio,
houvesse do teu corpo saído.

[ Ari Donato | Salvador / 2017]

Foto Ari Donato | Guanambi | Setembro de 2017.