2.

Quando se desfaz o dia,
Só, o homem agoniza-se.

– Assim eu faço! – Declara.
– Não! Mas assim é que deve ser feito! – Corrige a razão.

Pobre criatura mortal!
Como chegar ao Centro do Universo,
Se tu ignoras a amplidão?

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Outra história

Um mar, uma floresta. Mil palavras!
Moça, o que tanto e tanto nos afasta?
Seguimos juntos, porém apartados,
Como as barras de ferro paralelas
Que suportam o trem deslizando.
E temos tanto e tanto tolerado,
Retas, curvas, subidas e descidas,
A transportar nosso próprio destino.
Oh! Qual anjo, qual mágico, qual fada
Das histórias ouvidas, lá na infância,
Dirá, depois, num sorriso divino:
– E viveram felizes para sempre!

[Ari Donato | Salvador / 2017]

Não mais

Soprou a brisa no fim da tarde
e trouxe-me um suave perfume.
Oh, doce sabor! Donde é que veio,
de qu’estrela, assim, inebriante?
Seria mesmo de tão distante?
Ah! De que astro volátil emana
este lauto e gracioso enleio,
ao qual, ávido, meu prazer se une?
Ora, do pano do teu vestido
desprende o perfume que me inflama.
Imagina, então, meu devaneio,
houvesse do teu corpo saído.

[ Ari Donato | Salvador / 2017]

Foto Ari Donato | Guanambi | Setembro de 2017.

No fim da tarde

Se numa tarde dessas
A mim voltasses.
E, dos teus lábios de batom encarnado,
Aquele vento morno, lá do passado,
Avivasse antigas promessas,
Eu ainda acreditaria?
Aquelas que outrora
Em meus ouvidos sopraras,
Atiçando-me anseios vespertinos
Com juras de vida e destino.
Se fizesses aquelas promessas,
Eu ainda acreditaria?
Sob o eco das palavras, distantes,
Findaram-se as tardes nos montes
Que a esperança erigiu,
Com blocos de dias vazios.
Se voltasses com aquelas promessas,
Não mais acreditaria!

[Ari Donato | Salvador / 2016]

Uma bomba de amor aqui

É possível que alguém,
Em momento inspirado,
Tenha muito desejado
Que se lançasse,
Sem receio, sem temor,
Sobre a humanidade,
Uma grande bomba de amor.
Assim, ó poetas!
Não haveria mortos
No leito de felicidade
De nós homens e mulheres!
Seríamos tantos os sem-dor,
Se caísse sobre a humanidade
Uma grande bomba de amor.

Sou um homem feliz?
“Y quiero que me perdonen
por este día los muertos de mi felicidad.”

[Ari Donato | Salvador / 2016]

Circunflexo

Eu não quero o teu corpo
Eu não quero a tua alma,
(Joaquim Cardozo)

Não terás o meu corpo;
As chagas que ele traz não entalham nomes.
Não terás a minha alma,
Mas deves senti-la. E verás sê-la insone.
Deixa quieto o meu ser (minha pessoa inviolável)!
Mas saibas que, no circunflexo,
Tudo te contorna, em elo inexorável.
Anseies, pois, pelo prazer que cabe a ti
No momento a dois.
Essa parte que não posso (eu mesmo) dar a mim.
Bom não quereres o meu corpo ou minha alma.
Que vivas então amada. Amante e bela, assim.

[Ari Donato | Salvador / 2014]

Cegueira

Cegos de uma cegueira secular!
Quando tiranos pensam em vocês?
[E quando pensaram?
Cegos de uma cegueira secular!
Quando ouvirão a história?
[E quando ouviram?
Cegos de uma cegueira secular!
Quando verão os grilhões?
[E quando viram?
Cegos de uma cegueira secular!
Quando separarão o joio?
[E quando separaram?
Cegos de uma cegueira secular!
Quando deixarão de se submeter?
[E quando deixaram?
Cegos de uma cegueira secular!
Quando olharão o horizonte?
[E quando olharam?
Cegos de uma cegueira secular!
Quando verão tudo já visto?
[E quando viram?
Cegos de uma cegueira secular!
Quando acordarão, ao fim do sonho?
[E quando acordaram?
Cegos de uma cegueira secular!
Talvez já vivam o ocaso – não percebem? –
Da liberdade de que tanto falam.

[Ari Donato | Salvador / 2016]