8.

Acordo em meio de um sono pesado.
Sem um magro tostão – sem nada ao meu lado.
Seguindo por um longo caminho onde se movem
– como se no Sorbone, na tela do cinema –
Cenas de um sonho com um só ator – em monólogo.
– Quero deixar a sala, não vejo o lanterninha!
Faltou energia e o projetor falha.
Um demorado “Oh!” pelo salão se espalha.
Vejo-me isolado, naquela retangular escuridão.
Que drama! Sem saber: sonhava ou vivia.

Desfaz-se a minha cama e um barco me conduz
Pelas águas irrequietas de um grande rio,
Até despencar do alto de uma cachoeira
E mergulhar nesta quadra vazia da vida.

Saltei do sono para o infindo buraco
Em que ora vivo – de prolongada letargia –
E aqui estou, a construir poesia que muitos –
Certamente quase todos – jamais vão ler um dia.

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Cabra-cega

Cabra-cega!
Sempre nos jogos
De minha infância,
Não sei porquê,
Quando criança,
Vendavam-me os olhos,
E punham-se, meus amigos
A se esconder.

Tempo passado,
Cabra-cega sem amigos.
Caiu-me a venda,
Agarrei-me aos livros
Pois, sem incentivos
Para sair,
Fiquei entre letras,
Números e lendas.

Muitos, inocentes,
Brincam – olhar vendados!
A cair, a levantar,
Por si ou ajudados.
Não são inermes,
Têm defesa certa.
Mas são inertes,
São cabras-cegas.

Como no passado,
o escuro da venda.
Ouçam, estou vivo!
Quero ser livre!
Mas tolhem-me os passos
se grito alerta;
Cobrem-me os olhos.
Sou cabra-cega.

[Ari Donato | Salvador / 1974]

Serenidade

Quando olho seus olhos
Vejo o crepúsculo
Da minha tranquilidade.
– A sua serenidade.

O que, então, precisa,
Para conforto ao martírio,
A minha fragilidade?
– A sua serenidade.

Da candura de seu olhar
Escorre o bálsamo de cura,
De combate à debilidade.
– A sua serenidade.

[Ari Donato | Salvador / 2010]

Colibri

Fugaz no tempo
Tanto quanto o pensamento.
Sereno barco
No infinito azul do mar.
Um doce lampejo
Encarnado em desejo.
Assim é a felicidade!

Assim é seu voo
Pelas minhas tardes,
Oh! cativante colibri!

[Ari Donato | Salvador / 2020]

  • Quadro Colibri, em Óleo Sobre Tela, da artista plástica Rose Fernandes.

Flor de junho

Oh! amável flor branca! Que tanto me encanta,
tanto me embala o sono! Oh! bela flor de outono!
Sempre no mês de junho floresce! No inverno,
também, abre suas pétalas. Oh! doce angélica!
U’a, duas vezes na praça, vejo-a na sua graça.
Quando, dos exercícios, eu por ali passo,
lá está. Branca flor de angélica, um candor!
Que perfuma o jardim onde percorro. E a mim!

[Ari Donato | Salvador / 2019]

Foto Ari Donato | Salvador – Bahia | Novembro de 2020.

2.

Quando se desfaz o dia,
Só, o homem agoniza-se.

– Assim eu faço! – Declara.
– Não! Mas assim é que deve ser feito! – Corrige a razão.

Pobre criatura mortal!
Como chegar ao Centro do Universo,
Se tu ignoras a amplidão?

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Outra história

Um mar, uma floresta. Mil palavras!
Moça, o que tanto e tanto nos afasta?
Seguimos juntos, porém apartados,
Como as barras de ferro paralelas
Que suportam o trem deslizando.
E temos tanto e tanto tolerado,
Retas, curvas, subidas e descidas,
A transportar nosso próprio destino.
Oh! Qual anjo, qual mágico, qual fada
Das histórias ouvidas, lá na infância,
Dirá, depois, num sorriso divino:
– E viveram felizes para sempre!

[Ari Donato | Salvador / 2017]

Não mais

Soprou a brisa no fim da tarde
e trouxe-me um suave perfume.
Oh, doce sabor! Donde é que veio,
de qu’estrela, assim, inebriante?
Seria mesmo de tão distante?
Ah! De que astro volátil emana
este lauto e gracioso enleio,
ao qual, ávido, meu prazer se une?
Ora, do pano do teu vestido
desprende o perfume que me inflama.
Imagina, então, meu devaneio,
houvesse do teu corpo saído.

[ Ari Donato | Salvador / 2017]

Foto Ari Donato | Guanambi | Setembro de 2017.

No fim da tarde

Se numa tarde dessas
A mim voltasses.
E, dos teus lábios de batom encarnado,
Aquele vento morno, lá do passado,
Avivasse antigas promessas,
Eu ainda acreditaria?
Aquelas que outrora
Em meus ouvidos sopraras,
Atiçando-me anseios vespertinos
Com juras de vida e destino.
Se fizesses aquelas promessas,
Eu ainda acreditaria?
Sob o eco das palavras, distantes,
Findaram-se as tardes nos montes
Que a esperança erigiu,
Com blocos de dias vazios.
Se voltasses com aquelas promessas,
Não mais acreditaria!

[Ari Donato | Salvador / 2016]

Uma bomba de amor aqui

É possível que alguém,
Em momento inspirado,
Tenha muito desejado
Que se lançasse,
Sem receio, sem temor,
Sobre a humanidade,
Uma grande bomba de amor.
Assim, ó poetas!
Não haveria mortos
No leito de felicidade
De nós homens e mulheres!
Seríamos tantos os sem-dor,
Se caísse sobre a humanidade
Uma grande bomba de amor.

Sou um homem feliz?
“Y quiero que me perdonen
por este día los muertos de mi felicidad.”

[Ari Donato | Salvador / 2016]