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A Carmem Mueller

Em delírio, ouço cantar uma estrela!
Que no silêncio do infinito espalma
Suas luzes, suas cores. Tão bela,
Muito me faz bem, abranda-me a alma.

Triste, o pássaro cala, perde o encanto.
Não mais se ouve! O que pode ser mais triste:
A plangente melodia do pranto;
A mudez do canto da morte em riste?

Morte não é apenas o findar-se –
Se a ventura assim o determinasse.
Sim: vive-se na vida sem vivê-la!

Calou o pássaro – na mata do espírito –,
Resignado ao que a mim delimito.
Quedo-me, ao silêncio de uma estrela!

Ari Donato | Salvador / 2021

Montagem de imagem de cactos, feita em Itacimirim, em foto de céu estrelado | ari donato.

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Ali, à janela do entardecer!
Flébil, de cotovelos no batente,
Aguardo – na esperança – por você,
Quando a tarde desmaia no poente.

Uma escultura acéfala, em carrara,
Essa pedra em mármore, branca e fria,
Assim talhou-me você – que passara,
Qual fada, certa tarde; em certo dia.

As luzes se acendem, já escurece…
Desolado – ai de mim! –, resta-me a prece!

Ari Donato | Salvador / 2021

Foto.aridon.stella maris

20.

Lá está o marinheiro,
De bamboleios no cais.
Alquebrado.
Aporta ali suas lembranças.
Que de tantas, escorregam
Ao costado.
Atira um olhar ao mar.
Como o grasnar da gaivota,
Acrobático.
Volta a vista ao velho barco,
Que do mastro arriam as velas.
Não há vento!

Torna à casa melancólico.
No horizonte, outra borrasca.
Que tormento!

Ari Donato | Salvador / 2021

17.

A palavra ultrapassa a mecânica
Representação do pensar humano.
Reúne a força do desejo, o poder da vontade.
Pois é divina!
A palavra dispensa a semântica,
Independe da fonologia; é anterior à sintaxe.
Manifestou-se durante a criação!
Ela é divina!
A palavra afastou as trevas,
Chamou a luz e o firmamento.
Ensinou as bem-aventuranças no Sermão!
Pois é divina!
A palavra traduz a fé.
Ela recupera e purifica,
Prega o amor e o perdão; curou o paralítico!
Ela é divina!

Feliz quem acredita na palavra
E dela faz uso em sacrifício.

Ari Donato | Salvador / 2021

A tela “O Sermão da Montanha”, do pintor norueguês Carl Heinrich Bloch (1834-1890).

16.

Deixo com você
As flores silvestres!
Perfumadas – diversas –
Tão singelas!
São como estrelas –
Estas exalam brilho
Nos campos celestes,
Aquelas cintilam seus dias.

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Foto Ari Donato | Itapicuru – Guanambi | Março de 2020.

A borboleta!

Voando… Passa por mim a borboleta!
Se sabe que são curtos os seus dias,
São poucas minhas horas de alegrias.
Do tempo, somos grãos na sua ampulheta!
Mas voa… Asas abertas e sem medo.
Basta-lhe a infinitude da campina,
Para subir ao palco a bailarina!
Vem… Assenta na ponta do meu dedo!
Flutua… Doce perfume natural.
– Bebo goles de dores do meu graal.

[Ari Donato | Salvador / 2020]

15.

Foto Ari Donato | Stella Maris – Salvador | Fevereiro 2021.

Doce e leve brisa
Que minhas tardes –
Em Stella Maris –
Suaviza.
Pelos meus cabelos,
Escorra os dedos
Umedecidos na delícia
De suas carícias.

(…)
Sei que precisa ir.
Tocar rios e montes!
Quanto a mim? Aqui –
Calado – sem horizonte.

[Ari Donato | Salvador / 2021]

8.

Acordo em meio de um sono pesado.
Sem um magro tostão – sem nada ao meu lado.
Seguindo por um longo caminho onde se movem
– como se no Sorbone, na tela do cinema –
Cenas de um sonho com um só ator – em monólogo.
– Quero deixar a sala, não vejo o lanterninha!
Faltou energia e o projetor falha.
Um demorado “Oh!” pelo salão se espalha.
Vejo-me isolado, naquela retangular escuridão.
Que drama! Sem saber: sonhava ou vivia.

Desfaz-se a minha cama e um barco me conduz
Pelas águas irrequietas de um grande rio,
Até despencar do alto de uma cachoeira
E mergulhar nesta quadra vazia da vida.

Saltei do sono para o infindo buraco
Em que ora vivo – de prolongada letargia –
E aqui estou, a construir poesia que muitos –
Certamente quase todos – jamais vão ler um dia.

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Cabra-cega

Cabra-cega!
Sempre nos jogos
De minha infância,
Não sei porquê,
Quando criança,
Vendavam-me os olhos,
E punham-se, meus amigos
A se esconder.

Tempo passado,
Cabra-cega sem amigos.
Caiu-me a venda,
Agarrei-me aos livros
Pois, sem incentivos
Para sair,
Fiquei entre letras,
Números e lendas.

Muitos, inocentes,
Brincam – olhar vendados!
A cair, a levantar,
Por si ou ajudados.
Não são inermes,
Têm defesa certa.
Mas são inertes,
São cabras-cegas.

Como no passado,
o escuro da venda.
Ouçam, estou vivo!
Quero ser livre!
Mas tolhem-me os passos
se grito alerta;
Cobrem-me os olhos.
Sou cabra-cega.

[Ari Donato | Salvador / 1974]

Serenidade

Quando olho seus olhos
Vejo o crepúsculo
Da minha tranquilidade.
– A sua serenidade.

O que, então, precisa,
Para conforto ao martírio,
A minha fragilidade?
– A sua serenidade.

Da candura de seu olhar
Escorre o bálsamo de cura,
De combate à debilidade.
– A sua serenidade.

[Ari Donato | Salvador / 2010]