Serenidade

Quando olho seus olhos
Vejo o crepúsculo
Da minha tranquilidade.
– A sua serenidade.

O que, então, precisa,
Para conforto ao martírio,
A minha fragilidade?
– A sua serenidade.

Da candura de seu olhar
Escorre o bálsamo de cura,
De combate à debilidade.
– A sua serenidade.

[Ari Donato | Salvador / 2010]

5.

No galho mais tenro do imbuzeiro
Brilha, ao sol, o doce fruto – já maduro.
Ou será de outra árvore – tantas eu vejo –
E que aos meus sentidos inflama!
– Quien sabe!
Sabe-se que fruto assim não se derrama,
Não se colhe ao chão.
Precisa-se da maciez da seda,
Da paciência da sua lagarta.

Cerram-me os olhos – como a um fim de tarde.
Em lamentos – ante a fragilidade –
As mãos fogem ao desejo da alma!
Desalcançam a copa da árvore,
Distanciam-se da ramagem – vítimas da senilidade.
– No tienes fuerzas y no puedes rehacerlas!
Quedo-me então a admirar a lua – nua –
Na amplidão do céu.
Polvilhado de estrelas

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Foto Ari Donato | Guanambi – Bahia | Outubro de 2017.

Sem querer…

Sem querer despedir-me de vocês,
Despeço-me da despedida…
Ó vida
Pálida! Qual o desmatar!

Sem querer separar outra vez,
Separo-me da separação…
Ó coração
Doído! Qual o infartar!

Sem querer sonho atormentante,
Afasto sonhar o que não vi…
Oh! Dormir
A quietude do lajedo!

Suspiro o aroma embalsamante
De serenos dias beber.
Oh! Viver
O presente é que almejo!

[Ari Donato | Salvador / 2014]

É sempre tempo para se falar de poetas

<Para meu amigo Damário daCruz>

É preciso ler
nossos próprios poetas.
São frestas
que de lá escorrem
experiências
tão próximas
quanto a nossa sombra.

É preciso ler
nossos próprios poetas.
Antes que as borboletas
no-los levem.

É preciso ler
nossos próprios poetas.
Antes que voem.

[Ari Donato | Salvador / 2014]

Companhia

Quem, se eu gritasse, ouvir-me-ia
Na hierarquia dos anjos?
(Rainer Maria Rilke, em Elegias de Duíno)

Que lamento meu seria capaz
De, elevando-se aos céus,
Acordar um anjo qualquer.
Um mensageiro, que dissesse:
– Aqui estou! Alvissareiro,
Trago-te o que tu’alma requer.

Ou, então, que grito poderia
Romper as tenebrosas brumas
Deste meu caminho e despertar
Alguma fada. Que me dissesse:
– Aqui estou! Alvissareira,
Trago-te porção do bem amar.

Anjos, fadas e magos!
E todos os querubins e serafins
Que estão a ouvir meu grito.
De vós, qual virá a mim, dizer:
– Aqui estou! Alvissareiro,
Onde estiveres eu fico.

Muito além dos meus braços,
Sei que adormeces cedo – sabes que durmo tarde.
À noite me embaraço
Em farpas de saudade grudadas ao travesseiro.
– Ah! Meu cativeiro.

A quem, neste tempo,
De frágil paz e real dor – e de barro os heróis –,
Pode-se clamar alento?
No peito a tristeza remói, transpassa-o por inteiro.
– Ah! Nosso cativeiro.

[Ari Donato | Salvador / 2009]

Colibri

Fugaz no tempo
Tanto quanto o pensamento.
Sereno barco
No infinito azul do mar.
Um doce lampejo
Encarnado em desejo.
Assim é a felicidade!

Assim é seu voo
Pelas minhas tardes,
Oh! cativante colibri!

[Ari Donato | Salvador / 2020]

  • Quadro Colibri, em Óleo Sobre Tela, da artista plástica Rose Fernandes.

Flor de junho

Oh! amável flor branca! Que tanto me encanta,
tanto me embala o sono! Oh! bela flor de outono!
Sempre no mês de junho floresce! No inverno,
também, abre suas pétalas. Oh! doce angélica!
U’a, duas vezes na praça, vejo-a na sua graça.
Quando, dos exercícios, eu por ali passo,
lá está. Branca flor de angélica, um candor!
Que perfuma o jardim onde percorro. E a mim!

[Ari Donato | Salvador / 2019]

Foto Ari Donato | Salvador – Bahia | Novembro de 2020.

2.

Quando se desfaz o dia,
Só, o homem agoniza-se.

– Assim eu faço! – Declara.
– Não! Mas assim é que deve ser feito! – Corrige a razão.

Pobre criatura mortal!
Como chegar ao Centro do Universo,
Se tu ignoras a amplidão?

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Outra história

Um mar, uma floresta. Mil palavras!
Moça, o que tanto e tanto nos afasta?
Seguimos juntos, porém apartados,
Como as barras de ferro paralelas
Que suportam o trem deslizando.
E temos tanto e tanto tolerado,
Retas, curvas, subidas e descidas,
A transportar nosso próprio destino.
Oh! Qual anjo, qual mágico, qual fada
Das histórias ouvidas, lá na infância,
Dirá, depois, num sorriso divino:
– E viveram felizes para sempre!

[Ari Donato | Salvador / 2017]

Não mais

Soprou a brisa no fim da tarde
e trouxe-me um suave perfume.
Oh, doce sabor! Donde é que veio,
de qu’estrela, assim, inebriante?
Seria mesmo de tão distante?
Ah! De que astro volátil emana
este lauto e gracioso enleio,
ao qual, ávido, meu prazer se une?
Ora, do pano do teu vestido
desprende o perfume que me inflama.
Imagina, então, meu devaneio,
houvesse do teu corpo saído.

[ Ari Donato | Salvador / 2017]

Foto Ari Donato | Guanambi | Setembro de 2017.