8.

Acordo em meio de um sono pesado,
Sem um magro tostão, nada ao meu lado.
Ensombro uma tela quando se movem
Cenas de um sonho – com ator em monólogo.

Faltou energia e o projetor falha.
Demorado “Oh!” pelo salão se espalha.
Estou naquele retângulo escuro.
Drama! Sem saber: sonhava ou vivia.

Seguindo as águas inquietas de um rio,
Meu barco despenca pela cachoeira.
Cai na quadra desta vida vazia,

Em que ora nado – longa letargia –
A regurgitar poemas que muitos –
Quase todos – jamais vão ler um dia.

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Foto Ari Donato | Rascunhos | Fevereiro 2021.

Reflexão sexagenária

Que bom que a desilusão quanto à vida
Chega-nos após meado do caminho,
Quando mais da metade foi andada.
Se chegasse antes, nada construiríamos,

Antes do fim da nossa caminhada.
Mudamos a qualquer tempo a opinião,
Pois tempo já não nos importa mais,
Senão o oposto do que foi dito antes.

Pois assim corrigimos nossos erros,
Sem nos trairmos, mas sermos fieis
A nós mesmos – nosso conhecimento –

Quanto à histórica estupidez humana,
Que de todos recebe o acolhimento,
De ser o primeiro da Criação.

[Ari Donato | Salvador / 2017]

Oração

Luz que emana da alma
Para elevar-se aos céus, na busca de Deus.
É a oração.

Palavras em forma de prece,
Sob a influência divina, que as ilumina.
É a oração.

Bendita súplica mediadora,
Alimento da paz celeste, que Deus concede.
É a oração.

[Ari Donato | Salvador / 2011]

9.

Foto José Silva | Rio São Francisco – Bahia | Outubro de 2007.

Afortunada barqueira!
Transporte-me para a outra margem – Imploro!
Tenho padecido deste lado do rio
Enquanto suas águas – de mãos dadas –
Passam indolentes, a cantarolar marolas.
Insensíveis a meus clamores,
Esnobam o desejo de provar o que ainda não vi.

Acaso as águas têm noção do que as espera
Além da curva, após o monte – descendo a planície?
A chuva sabe que logo cairá;
O vento, que deve soprar;
E o dia – ao contrário da noite – raiar!
Desconsidere as águas, oh, barqueira!
Transporte-me para a outra margem – Peço!

– Humano efêmero, limitado!
Sou a divindade que fala com o Bem e o Mal.
Atendo ao Destino; não a insensatos.
Não conduzo as águas – elas vão adoçar o mar! –
Há algo mais nobre do que se doar?

[Ari Donato | Salvador / 2021]

8.

Acordo em meio de um sono pesado.
Sem um magro tostão – sem nada ao meu lado.
Seguindo por um longo caminho onde se movem
– como se no Sorbone, na tela do cinema –
Cenas de um sonho com um só ator – em monólogo.
– Quero deixar a sala, não vejo o lanterninha!
Faltou energia e o projetor falha.
Um demorado “Oh!” pelo salão se espalha.
Vejo-me isolado, naquela retangular escuridão.
Que drama! Sem saber: sonhava ou vivia.

Desfaz-se a minha cama e um barco me conduz
Pelas águas irrequietas de um grande rio,
Até despencar do alto de uma cachoeira
E mergulhar nesta quadra vazia da vida.

Saltei do sono para o infindo buraco
Em que ora vivo – de prolongada letargia –
E aqui estou, a construir poesia que muitos –
Certamente quase todos – jamais vão ler um dia.

[Ari Donato | Salvador / 2021]

10.

Preciso de um novo abecedário.
Seria o A, amor;
Seria o B, bondade;
Seria o C, caridade;
Seria o D, doação;
Seria o E, entrega;
Seria o F, franqueza.
E mesmo que o G seja guerra
E o H, humanidade,
Ainda assim tenho o I, de irmandade.
Seria o J, justeza;
Seria o L, lucidez;
Seria o M, mãe;
Seria o N, natureza.
Caso o O seja orgulho,
Tenho o P, de pureza.
Certo de o Q trazer queixa
Tenho no R razão
E, no S, sabedoria.
Seria o T, talento;
Seria o U, urbanidade;
Seria o V, verdade.
Tenho no X o alvitre de XPTO –
Abreviação do grego Χριστός, igual a Cristo –
Seria o Z, zênite –
Acima do horizonte –
Culminância da raça humana.

[Ari Donato | Salvador / 2021]

7.

Aqui, alguns bairros,
Atravessados de ruas e avenidas,
Estão a nos separar.
Adiante, um sonho,
Nos braços da esperança,
Virá nos aproximar…

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Cabra-cega

Cabra-cega!
Sempre nos jogos
De minha infância,
Não sei porquê,
Quando criança,
Vendavam-me os olhos,
E punham-se, meus amigos
A se esconder.

Tempo passado,
Cabra-cega sem amigos.
Caiu-me a venda,
Agarrei-me aos livros
Pois, sem incentivos
Para sair,
Fiquei entre letras,
Números e lendas.

Muitos, inocentes,
Brincam – olhar vendados!
A cair, a levantar,
Por si ou ajudados.
Não são inermes,
Têm defesa certa.
Mas são inertes,
São cabras-cegas.

Como no passado,
o escuro da venda.
Ouçam, estou vivo!
Quero ser livre!
Mas tolhem-me os passos
se grito alerta;
Cobrem-me os olhos.
Sou cabra-cega.

[Ari Donato | Salvador / 1974]

6.

Lampejo intenso; que desfoca. Assim é o ódio!
Na caça, o gavião – e outros soberanos –
Não se põe diante da luz,
Dá-lhe as costas – também o homem da floresta.

O citadino, o do comércio, leva às ruas o rancor –
Cobre a cabeça ou faz dele sua armadura.
O ódio turva-lhe a razão,
Ao sabor da repugnância que na alma matura.

Incrédulo, desconsidera as roliças pedras
– Levadas, não pelo inimigo; pelo aliado –,
Que se espalham sobre o campo de batalha.
Ignora que combate a si próprio
– O inimigo que necessita amar.
O ódio turva-lhe a razão!

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Medo

No amor não há lugar para o temor
(I João 4,18)

Queres saber
Se me inquietarei
Ao amanhecer,
Após emoções e pensamentos
– Do entrar da lua ao sair do sol –
Mudarem-se em vaivém?

Queres saber
Se eu temo as dúvidas
Que me invadem a mente,
– Em repetição persistente –
Ou se me afligem
As compulsões de alguém?

Ora, nada devia me causar anseio!
– Nem trazer-me hesitação. –
Está no Evangelho
Que o amor retira a inquietação
– O perfeito amor lança fora o medo.
Mas não! Arrastam-me ondas de emoção!

[Ari Donato | Salvador / 2010]

Foto Ari Donato | Guanambi – Bahia | Setembro de 2017.