15.

Foto Ari Donato | Stella Maris – Salvador | Fevereiro 2021.

Doce e leve brisa
Que minhas tardes –
Em Stella Maris –
Suaviza.
Pelos meus cabelos,
Escorra os dedos
Umedecidos na delícia
De suas carícias.

(…)
Sei que precisa ir.
Tocar rios e montes!
Quanto a mim? Aqui –
Calado – sem horizonte.

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Insano

Ai de mim! Ai de mim!
Sem rosas no jardim!
Por que pediste tanto – coração –
Para colher a flor? Se imaginária…
Bem sabes tu da minha condição
De náufrago no mar do dessossego…
Insana paixão! Quanto me foi cara.
Na taça do desejo agora bebo
Fortes doses de dor. Enquanto ris…
Retalho do meu peito! Que infeliz!

[Ari Donato | Salvador / 2020]

12.

Bem no centro de uma região bonita
– De rios, belas florestas e montanhas –
Regiam um soberano e seus cavaleiros.

Além dos muros pétreos do castelo,
A população mourejava aflita.
Uma mortal maldição – de onde vinda? –

Dizimava os mais fracos e os mais velhos.
Lançada por feiticeiros distantes
– Falava o monarca a seus cavaleiros –

Com nada conto, contra tal encanto!
Por que haveria de ser diferente?
Exército é férreo; não fraco e doente!

– Uma voz ressoa dentro do castelo –
Majestade, fraco, doente e velho
Há na família de qualquer soldado!

Que seja! Mas não volto minhas forças
Contra essa magia; da forma que veio,
Irá embora. Tudo isso é da vida!

(…)

A razão está comigo. Percebem
Que tudo já passou? Não se comovem?
Lá fora não gritam mais! Que celebrem!

– Dentro do castelo uma voz ressoa –
Não lhes sobra tempo para tal loa,
Majestade. Tomaram-lho seus mortos!

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Reprodução fotográfica de Operários, de Tarsila do Amaral, óleo sobre tela, 150 x 230 cm, 1933.

11.

Solitário juazeiro!
Esverdeado farol em desértica vereda.

Sacode-se ao silvo do vento
Como a saudar – com tristeza –
O mar de copas há muito dali varrido
Pela vaga avassaladora do tempo.

Ainda que ermo sobreviva
Em meio à dureza da caatinga,
Uma nesga de alegria
Escorre-lhe pelo ressequido caule,
Ao ouvir a algazarra de suas folhas
Sob as carícias macias da tarde.

E toda sua alma de vegetal baila
– Porque é um ser, tem vida –
Transmudada em ramos bizarros,
Ondeados no voo do joão-de-barro

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Foto Elice Donato | Itapicuru – Guanambi | Fevereiro 2021.

Hospital

O soro desperta-me
Para as horas
– Que me escapam,
A gotejar,
Levando o dia.

Os últimos raios de sol
Arrastam-se
Sobre o lençol
– E deixam sombras,
Repetidas, entre as dobras.

A amargura
Vale-se da bruma,
Atravessa a janela,
– Invade o quarto –
E aprisiona-me a alma.

[Ari Donato | Salvador / 1997]

8.

Acordo em meio de um sono pesado,
Sem um magro tostão, nada ao meu lado.
Ensombro uma tela quando se movem
Cenas de um sonho – com ator em monólogo.

Faltou energia e o projetor falha.
Demorado “Oh!” pelo salão se espalha.
Estou naquele retângulo escuro.
Drama! Sem saber: sonhava ou vivia.

Seguindo as águas inquietas de um rio,
Meu barco despenca pela cachoeira.
Cai na quadra desta vida vazia,

Em que ora nado – longa letargia –
A regurgitar poemas que muitos –
Quase todos – jamais vão ler um dia.

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Foto Ari Donato | Rascunhos | Fevereiro 2021.

Reflexão sexagenária

Que bom que a desilusão quanto à vida
Chega-nos após meado do caminho,
Quando mais da metade foi andada.
Se chegasse antes, nada construiríamos,

Antes do fim da nossa caminhada.
Mudamos a qualquer tempo a opinião,
Pois tempo já não nos importa mais,
Senão o oposto do que foi dito antes.

Pois assim corrigimos nossos erros,
Sem nos trairmos, mas sermos fieis
A nós mesmos – nosso conhecimento –

Quanto à histórica estupidez humana,
Que de todos recebe o acolhimento,
De ser o primeiro da Criação.

[Ari Donato | Salvador / 2017]

Oração

Luz que emana da alma
Para elevar-se aos céus, na busca de Deus.
É a oração.

Palavras em forma de prece,
Sob a influência divina, que as ilumina.
É a oração.

Bendita súplica mediadora,
Alimento da paz celeste, que Deus concede.
É a oração.

[Ari Donato | Salvador / 2011]

9.

Foto José Silva | Rio São Francisco – Bahia | Outubro de 2007.

Afortunada barqueira!
Transporte-me para a outra margem – Imploro!
Tenho padecido deste lado do rio
Enquanto suas águas – de mãos dadas –
Passam indolentes, a cantarolar marolas.
Insensíveis a meus clamores,
Esnobam o desejo de provar o que ainda não vi.

Acaso as águas têm noção do que as espera
Além da curva, após o monte – descendo a planície?
A chuva sabe que logo cairá;
O vento, que deve soprar;
E o dia – ao contrário da noite – raiar!
Desconsidere as águas, oh, barqueira!
Transporte-me para a outra margem – Peço!

– Humano efêmero, limitado!
Sou a divindade que fala com o Bem e o Mal.
Atendo ao Destino; não a insensatos.
Não conduzo as águas – elas vão adoçar o mar! –
Há algo mais nobre do que se doar?

[Ari Donato | Salvador / 2021]

8.

Acordo em meio de um sono pesado.
Sem um magro tostão – sem nada ao meu lado.
Seguindo por um longo caminho onde se movem
– como se no Sorbone, na tela do cinema –
Cenas de um sonho com um só ator – em monólogo.
– Quero deixar a sala, não vejo o lanterninha!
Faltou energia e o projetor falha.
Um demorado “Oh!” pelo salão se espalha.
Vejo-me isolado, naquela retangular escuridão.
Que drama! Sem saber: sonhava ou vivia.

Desfaz-se a minha cama e um barco me conduz
Pelas águas irrequietas de um grande rio,
Até despencar do alto de uma cachoeira
E mergulhar nesta quadra vazia da vida.

Saltei do sono para o infindo buraco
Em que ora vivo – de prolongada letargia –
E aqui estou, a construir poesia que muitos –
Certamente quase todos – jamais vão ler um dia.

[Ari Donato | Salvador / 2021]