19.

Perdoe-me não haver chegado antes;
E por todo o tempo distante,
Confuso – em procura alienante.

As flores agora exalam nostalgia!
Sem borboletas que – na regalia –
Esvoaçavam-se em estripulias.

Perdoe-me não haver chegado logo,
Para ouvir sua voz – seus rogos –
Afastar-nos desse desafogo.

Olho vasos de desânimo – que rego.
E já esverdeia o recomeço,
No corte de ramos do dessossego.

Ari Donato | Salvador / 2021

Foto Ari Donato – Trecho urbano da Estrada de Ferro Campos do Jordão – 2014.

18.

As estrelas tremulam.
São como olhos insones.
Se movemos o rosto,
Parece-nos que somem!
Da imensidão polvilham
Sinais, a perguntar:
– Mentes por convicção ou por não mais
Distinguires verdadeiro de falso;
Separares do limpo todo o turvo?

Ari Donato | Salvador / 2021

A noite estrelada, do artista holandês Vincent Van Gogh, óleo sobre tela, 73 x 92 cm, 1889.

17.

A palavra ultrapassa a mecânica
Representação do pensar humano.
Reúne a força do desejo, o poder da vontade.
Pois é divina!
A palavra dispensa a semântica,
Independe da fonologia; é anterior à sintaxe.
Manifestou-se durante a criação!
Ela é divina!
A palavra afastou as trevas,
Chamou a luz e o firmamento.
Ensinou as bem-aventuranças no Sermão!
Pois é divina!
A palavra traduz a fé.
Ela recupera e purifica,
Prega o amor e o perdão; curou o paralítico!
Ela é divina!

Feliz quem acredita na palavra
E dela faz uso em sacrifício.

Ari Donato | Salvador / 2021

A tela “O Sermão da Montanha”, do pintor norueguês Carl Heinrich Bloch (1834-1890).

16.

Deixo com você
As flores silvestres!
Perfumadas – diversas –
Tão singelas!
São como estrelas –
Estas exalam brilho
Nos campos celestes,
Aquelas cintilam seus dias.

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Foto Ari Donato | Itapicuru – Guanambi | Março de 2020.

A borboleta!

Voando… Passa por mim a borboleta!
Se sabe que são curtos os seus dias,
São poucas minhas horas de alegrias.
Do tempo, somos grãos na sua ampulheta!
Mas voa… Asas abertas e sem medo.
Basta-lhe a infinitude da campina,
Para subir ao palco a bailarina!
Vem… Assenta na ponta do meu dedo!
Flutua… Doce perfume natural.
– Bebo goles de dores do meu graal.

[Ari Donato | Salvador / 2020]

15.

Foto Ari Donato | Stella Maris – Salvador | Fevereiro 2021.

Doce e leve brisa
Que minhas tardes –
Em Stella Maris –
Suaviza.
Pelos meus cabelos,
Escorra os dedos
Umedecidos na delícia
De suas carícias.

(…)
Sei que precisa ir.
Tocar rios e montes!
Quanto a mim? Aqui –
Calado – sem horizonte.

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Insano

Ai de mim! Ai de mim!
Sem rosas no jardim!
Por que pediste tanto – coração –
Para colher a flor? Se imaginária…
Bem sabes tu da minha condição
De náufrago no mar do dessossego…
Insana paixão! Quanto me foi cara.
Na taça do desejo agora bebo
Fortes doses de dor. Enquanto ris…
Retalho do meu peito! Que infeliz!

[Ari Donato | Salvador / 2020]

12.

Bem no centro de uma região bonita
– De rios, belas florestas e montanhas –
Regiam um soberano e seus cavaleiros.

Além dos muros pétreos do castelo,
A população mourejava aflita.
Uma mortal maldição – de onde vinda? –

Dizimava os mais fracos e os mais velhos.
Lançada por feiticeiros distantes
– Falava o monarca a seus cavaleiros –

Com nada conto, contra tal encanto!
Por que haveria de ser diferente?
Exército é férreo; não fraco e doente!

– Uma voz ressoa dentro do castelo –
Majestade, fraco, doente e velho
Há na família de qualquer soldado!

Que seja! Mas não volto minhas forças
Contra essa magia; da forma que veio,
Irá embora. Tudo isso é da vida!

(…)

A razão está comigo. Percebem
Que tudo já passou? Não se comovem?
Lá fora não gritam mais! Que celebrem!

– Dentro do castelo uma voz ressoa –
Não lhes sobra tempo para tal loa,
Majestade. Tomaram-lho seus mortos!

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Reprodução fotográfica de Operários, de Tarsila do Amaral, óleo sobre tela, 150 x 230 cm, 1933.

11.

Solitário juazeiro!
Esverdeado farol em desértica vereda.

Sacode-se ao silvo do vento
Como a saudar – com tristeza –
O mar de copas há muito dali varrido
Pela vaga avassaladora do tempo.

Ainda que ermo sobreviva
Em meio à dureza da caatinga,
Uma nesga de alegria
Escorre-lhe pelo ressequido caule,
Ao ouvir a algazarra de suas folhas
Sob as carícias macias da tarde.

E toda sua alma de vegetal baila
– Porque é um ser, tem vida –
Transmudada em ramos bizarros,
Ondeados no voo do joão-de-barro

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Foto Elice Donato | Itapicuru – Guanambi | Fevereiro 2021.

Hospital

O soro desperta-me
Para as horas
– Que me escapam,
A gotejar,
Levando o dia.

Os últimos raios de sol
Arrastam-se
Sobre o lençol
– E deixam sombras,
Repetidas, entre as dobras.

A amargura
Vale-se da bruma,
Atravessa a janela,
– Invade o quarto –
E aprisiona-me a alma.

[Ari Donato | Salvador / 1997]