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A Carmem Mueller

Em delírio, ouço cantar uma estrela!
Que no silêncio do infinito espalma
Suas luzes, suas cores. Tão bela,
Muito me faz bem, abranda-me a alma.

Triste, o pássaro cala, perde o encanto.
Não mais se ouve! O que pode ser mais triste:
A plangente melodia do pranto;
A mudez do canto da morte em riste?

Morte não é apenas o findar-se –
Se a ventura assim o determinasse.
Sim: vive-se na vida sem vivê-la!

Calou o pássaro – na mata do espírito –,
Resignado ao que a mim delimito.
Quedo-me, ao silêncio de uma estrela!

Ari Donato | Salvador / 2021

Montagem de imagem de cactos, feita em Itacimirim, em foto de céu estrelado | ari donato.

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Ali, à janela do entardecer!
Flébil, de cotovelos no batente,
Aguardo – na esperança – por você,
Quando a tarde desmaia no poente.

Uma escultura acéfala, em carrara,
Essa pedra em mármore, branca e fria,
Assim talhou-me você – que passara,
Qual fada, certa tarde; em certo dia.

As luzes se acendem, já escurece…
Desolado – ai de mim! –, resta-me a prece!

Ari Donato | Salvador / 2021

Foto.aridon.stella maris