28

Olhando a treva ateada
É bom saber que a tal lâmpada
Do delírio, outro – que não eu! –
Com sua mão acendeu.
Não se iluda, não se engane,
Toda treva é insone!

Caem e encharcam-me os dias
(Tardes sombrias, vazias;
Noites úmidas, insossas)
Grossas gotas de tristeza.tsr
Ó tempo, quanto que resta
Padecer esta alma presa!

Ari Donato | Salvador / 2021

“O grito”, óleo sobre tela, 91cm x 73,5cm, de Edvard Munch.

27

A Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac.

Quem a seus versos despreza,
Mesmo que os já tenha lido,
Bem mais que a fatal inveja,
Pequeneza traz consigo!

A mim nada deve príncipe
Dos versos parnasianos.
Muito mais devo, ó artífice
Que leio. Horas, dias e anos.

Seus sonetos, quem desdenha
Desconhece poesia.
Pouco ajuda na porfia!

Ó cinzel de arte tamanha!
Se brilham na Via-Láctea
Poetas: um é Bilac!

Ari Donato | Salvador / 2021

26

Não nasci poeta! Não.
Não nasci, também, Drummond;
Vim despido para o mundo.

Minas deu valente alferes.
Antes, foi comum mineiro;
Foi, depois, herói – luzeiro!

Cada verso a mim me vem
Qual semente – a tal cultivo –
Donde surge, pois, o fruto.

Ari Donato | Salvador / 2021

Na ilustração, “O barco da saudade”, óleo sobre tela de Silene Fernandes.