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A Luislinda de Valois

Tiranos! Do povo tomam-lhe a praça!
E o condor – afastado dela – passa.

Vil opressão! Abafa a voz do poeta,
E da liberdade seu cetro quebra!

Pouco importa se primeiro lugar;
Segundo, até um outro em que ficar

Na peleja contra a catividade.
Mais vale a Camélia da Liberdade!

Verboso, do combate surgiu, –
Reflexo, fruto do choro infantil, –

Um arco-íris de ações de inclusão;
Qual a Têmis, contra a segregação.

Égide dos que vieram após
A sina vasca da coluna atroz,

A falar sobre “a mesma cor” do sangue
Humano que, quente, da veia escorre.

Não mais a menina frágil! Não mais!
Senhora dos clamores sociais,

Deusa de Ébano, de estima infinda!
Brilhe, brilhe! Brilhe sempre luz linda!

Ari Donato | Salvador / 2021

A magistrada Luislinda Dias de Valois Santos. Foto: Ascom/TJBa/2016

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Olhando a treva ateada
É bom saber que a tal lâmpada
Do delírio, outro – que não eu! –
Com sua mão acendeu.
Não se iluda, não se engane,
Toda treva é insone!

Caem e encharcam-me os dias
(Tardes sombrias, vazias;
Noites úmidas, insossas)
Grossas gotas de tristeza.tsr
Ó tempo, quanto que resta
Padecer esta alma presa!

Ari Donato | Salvador / 2021

“O grito”, óleo sobre tela, 91cm x 73,5cm, de Edvard Munch.

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A Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac.

Quem a seus versos despreza,
Mesmo que os já tenha lido,
Bem mais que a fatal inveja,
Pequeneza traz consigo!

A mim nada deve príncipe
Dos versos parnasianos.
Muito mais devo, ó artífice
Que leio. Horas, dias e anos.

Seus sonetos, quem desdenha
Desconhece poesia.
Pouco ajuda na porfia!

Ó cinzel de arte tamanha!
Se brilham na Via-Láctea
Poetas: um é Bilac!

Ari Donato | Salvador / 2021

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Não nasci poeta! Não.
Não nasci, também, Drummond;
Vim despido para o mundo.

Minas deu valente alferes.
Antes, foi comum mineiro;
Foi, depois, herói – luzeiro!

Cada verso a mim me vem
Qual semente – a tal cultivo –
Donde surge, pois, o fruto.

Ari Donato | Salvador / 2021

Na ilustração, “O barco da saudade”, óleo sobre tela de Silene Fernandes.