12.

Bem no centro de uma região bonita
– De rios, belas florestas e montanhas –
Regiam um soberano e seus cavaleiros.

Além dos muros pétreos do castelo,
A população mourejava aflita.
Uma mortal maldição – de onde vinda? –

Dizimava os mais fracos e os mais velhos.
Lançada por feiticeiros distantes
– Falava o monarca a seus cavaleiros –

Com nada conto, contra tal encanto!
Por que haveria de ser diferente?
Exército é férreo; não fraco e doente!

– Uma voz ressoa dentro do castelo –
Majestade, fraco, doente e velho
Há na família de qualquer soldado!

Que seja! Mas não volto minhas forças
Contra essa magia; da forma que veio,
Irá embora. Tudo isso é da vida!

(…)

A razão está comigo. Percebem
Que tudo já passou? Não se comovem?
Lá fora não gritam mais! Que celebrem!

– Dentro do castelo uma voz ressoa –
Não lhes sobra tempo para tal loa,
Majestade. Tomaram-lho seus mortos!

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Reprodução fotográfica de Operários, de Tarsila do Amaral, 1933 – Óleo sobre tela (150 x 230 cm), acervo do Governo de São Paulo.

11.

Solitário juazeiro!
Esverdeado farol em desértica vereda.

Sacode-se ao silvo do vento
Como a saudar – com tristeza –
O mar de copas há muito dali varrido
Pela vaga avassaladora do tempo.

Ainda que ermo sobreviva
Em meio à dureza da caatinga,
Uma nesga de alegria
Escorre-lhe pelo ressequido caule,
Ao ouvir a algazarra de suas folhas
Sob as carícias macias da tarde.

E toda sua alma de vegetal baila
– Porque é um ser, tem vida –
Transmudada em ramos bizarros,
Ondeados no voo do joão-de-barro

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Foto Elice Donato | Itapicuru – Guanambi | Fevereiro 2021.

Hospital

O soro desperta-me
Para as horas
– Que me escapam,
A gotejar,
Levando o dia.

Os últimos raios de sol
Arrastam-se
Sobre o lençol
– E deixam sombras,
Repetidas, entre as dobras.

A amargura
Vale-se da bruma,
Atravessa a janela,
– Invade o quarto –
E aprisiona-me a alma.

[Ari Donato | Salvador / 1997]