9.

Foto José Silva | Rio São Francisco – Bahia | Outubro de 2007.

Afortunada barqueira!
Transporte-me para a outra margem – Imploro!
Tenho padecido deste lado do rio
Enquanto suas águas – de mãos dadas –
Passam indolentes, a cantarolar marolas.
Insensíveis a meus clamores,
Esnobam o desejo de provar o que ainda não vi.

Acaso as águas têm noção do que as espera
Além da curva, após o monte – descendo a planície?
A chuva sabe que logo cairá;
O vento, que deve soprar;
E o dia – ao contrário da noite – raiar!
Desconsidere as águas, oh, barqueira!
Transporte-me para a outra margem – Peço!

– Humano efêmero, limitado!
Sou a divindade que fala com o Bem e o Mal.
Atendo ao Destino; não a insensatos.
Não conduzo as águas – elas vão adoçar o mar! –
Há algo mais nobre do que se doar?

[Ari Donato | Salvador / 2021]

8.

Acordo em meio de um sono pesado.
Sem um magro tostão – sem nada ao meu lado.
Seguindo por um longo caminho onde se movem
– como se no Sorbone, na tela do cinema –
Cenas de um sonho com um só ator – em monólogo.
– Quero deixar a sala, não vejo o lanterninha!
Faltou energia e o projetor falha.
Um demorado “Oh!” pelo salão se espalha.
Vejo-me isolado, naquela retangular escuridão.
Que drama! Sem saber: sonhava ou vivia.

Desfaz-se a minha cama e um barco me conduz
Pelas águas irrequietas de um grande rio,
Até despencar do alto de uma cachoeira
E mergulhar nesta quadra vazia da vida.

Saltei do sono para o infindo buraco
Em que ora vivo – de prolongada letargia –
E aqui estou, a construir poesia que muitos –
Certamente quase todos – jamais vão ler um dia.

[Ari Donato | Salvador / 2021]