10.

Preciso de um novo abecedário.
Seria o A, amor;
Seria o B, bondade;
Seria o C, caridade;
Seria o D, doação;
Seria o E, entrega;
Seria o F, franqueza.
E mesmo que o G seja guerra
E o H, humanidade,
Ainda assim tenho o I, de irmandade.
Seria o J, justeza;
Seria o L, lucidez;
Seria o M, mãe;
Seria o N, natureza.
Caso o O seja orgulho,
Tenho o P, de pureza.
Certo de o Q trazer queixa
Tenho no R razão
E, no S, sabedoria.
Seria o T, talento;
Seria o U, urbanidade;
Seria o V, verdade.
Tenho no X o alvitre de XPTO –
Abreviação do grego Χριστός, igual a Cristo –
Seria o Z, zênite –
Acima do horizonte –
Culminância da raça humana.

[Ari Donato | Salvador / 2021]

7.

Aqui, alguns bairros,
Atravessados de ruas e avenidas,
Estão a nos separar.
Adiante, um sonho,
Nos braços da esperança,
Virá nos aproximar…

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Cabra-cega

Cabra-cega!
Sempre nos jogos
De minha infância,
Não sei porquê,
Quando criança,
Vendavam-me os olhos,
E punham-se, meus amigos
A se esconder.

Tempo passado,
Cabra-cega sem amigos.
Caiu-me a venda,
Agarrei-me aos livros
Pois, sem incentivos
Para sair,
Fiquei entre letras,
Números e lendas.

Muitos, inocentes,
Brincam – olhar vendados!
A cair, a levantar,
Por si ou ajudados.
Não são inermes,
Têm defesa certa.
Mas são inertes,
São cabras-cegas.

Como no passado,
o escuro da venda.
Ouçam, estou vivo!
Quero ser livre!
Mas tolhem-me os passos
se grito alerta;
Cobrem-me os olhos.
Sou cabra-cega.

[Ari Donato | Salvador / 1974]