6.

Lampejo intenso; que desfoca. Assim é o ódio!
Na caça, o gavião – e outros soberanos –
Não se põe diante da luz,
Dá-lhe as costas – também o homem da floresta.

O citadino, o do comércio, leva às ruas o rancor –
Cobre a cabeça ou faz dele sua armadura.
O ódio turva-lhe a razão,
Ao sabor da repugnância que na alma matura.

Incrédulo, desconsidera as roliças pedras
– Levadas, não pelo inimigo; pelo aliado –,
Que se espalham sobre o campo de batalha.
Ignora que combate a si próprio
– O inimigo que necessita amar.
O ódio turva-lhe a razão!

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Medo

No amor não há lugar para o temor
(I João 4,18)

Queres saber
Se me inquietarei
Ao amanhecer,
Após emoções e pensamentos
– Do entrar da lua ao sair do sol –
Mudarem-se em vaivém?

Queres saber
Se eu temo as dúvidas
Que me invadem a mente,
– Em repetição persistente –
Ou se me afligem
As compulsões de alguém?

Ora, nada devia me causar anseio!
– Nem trazer-me hesitação. –
Está no Evangelho
Que o amor retira a inquietação
– O perfeito amor lança fora o medo.
Mas não! Arrastam-me ondas de emoção!

[Ari Donato | Salvador / 2010]

Foto Ari Donato | Guanambi – Bahia | Setembro de 2017.

Serenidade

Quando olho seus olhos
Vejo o crepúsculo
Da minha tranquilidade.
– A sua serenidade.

O que, então, precisa,
Para conforto ao martírio,
A minha fragilidade?
– A sua serenidade.

Da candura de seu olhar
Escorre o bálsamo de cura,
De combate à debilidade.
– A sua serenidade.

[Ari Donato | Salvador / 2010]