31

A Carmem Mueller

Em delírio, ouço cantar uma estrela!
Que no silêncio do infinito espalma
Suas luzes, suas cores. Tão bela,
Muito me faz bem, abranda-me a alma.

Triste, o pássaro cala, perde o encanto.
Não mais se ouve! O que pode ser mais triste:
A plangente melodia do pranto;
A mudez do canto da morte em riste?

Morte não é apenas o findar-se –
Se a ventura assim o determinasse.
Sim: vive-se na vida sem vivê-la!

Calou o pássaro – na mata do espírito –,
Resignado ao que a mim delimito.
Quedo-me, ao silêncio de uma estrela!

Ari Donato | Salvador / 2021

Montagem de imagem de cactos, feita em Itacimirim, em foto de céu estrelado | ari donato.

30

Ali, à janela do entardecer!
Flébil, de cotovelos no batente,
Aguardo – na esperança – por você,
Quando a tarde desmaia no poente.

Uma escultura acéfala, em carrara,
Essa pedra em mármore, branca e fria,
Assim talhou-me você – que passara,
Qual fada, certa tarde; em certo dia.

As luzes se acendem, já escurece…
Desolado – ai de mim! –, resta-me a prece!

Ari Donato | Salvador / 2021

Foto.aridon.stella maris

29

A Luislinda de Valois

Tiranos! Do povo tomam-lhe a praça!
E o condor – afastado dela – passa.

Vil opressão! Abafa a voz do poeta,
E da liberdade seu cetro quebra!

Pouco importa se primeiro lugar;
Segundo, até um outro em que ficar

Na peleja contra a catividade.
Mais vale a Camélia da Liberdade!

Verboso, do combate surgiu, –
Reflexo, fruto do choro infantil, –

Um arco-íris de ações de inclusão;
Qual a Têmis, contra a segregação.

Égide dos que vieram após
A sina vasca da coluna atroz,

A falar sobre “a mesma cor” do sangue
Humano que, quente, da veia escorre.

Não mais a menina frágil! Não mais!
Senhora dos clamores sociais,

Deusa de Ébano, de estima infinda!
Brilhe, brilhe! Brilhe sempre luz linda!

Ari Donato | Salvador / 2021

A magistrada Luislinda Dias de Valois Santos. Foto: Ascom/TJBa/2016

28

Olhando a treva ateada
É bom saber que a tal lâmpada
Do delírio, outro – que não eu! –
Com sua mão acendeu.
Não se iluda, não se engane,
Toda treva é insone!

Caem e encharcam-me os dias
(Tardes sombrias, vazias;
Noites úmidas, insossas)
Grossas gotas de tristeza.tsr
Ó tempo, quanto que resta
Padecer esta alma presa!

Ari Donato | Salvador / 2021

“O grito”, óleo sobre tela, 91cm x 73,5cm, de Edvard Munch.

27

A Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac.

Quem a seus versos despreza,
Mesmo que os já tenha lido,
Bem mais que a fatal inveja,
Pequeneza traz consigo!

A mim nada deve príncipe
Dos versos parnasianos.
Muito mais devo, ó artífice
Que leio. Horas, dias e anos.

Seus sonetos, quem desdenha
Desconhece poesia.
Pouco ajuda na porfia!

Ó cinzel de arte tamanha!
Se brilham na Via-Láctea
Poetas: um é Bilac!

Ari Donato | Salvador / 2021

26

Não nasci poeta! Não.
Não nasci, também, Drummond;
Vim despido para o mundo.

Minas deu valente alferes.
Antes, foi comum mineiro;
Foi, depois, herói – luzeiro!

Cada verso a mim me vem
Qual semente – a tal cultivo –
Donde surge, pois, o fruto.

Ari Donato | Salvador / 2021

Na ilustração, “O barco da saudade”, óleo sobre tela de Silene Fernandes.

25.

Vai gaivota,
E de lá volta!

Traze do mais breve porto
Gestos de algo benfazejo.
Oh, veleja ave indelével!
Com o teu voo acrobático,
Por séculos imutável,
Tão belo e também dinástico.

Retorna, pois, qual a pomba
Para a arca, antes que, de tonta,
Desvarie a raça humana
A bordo da nau mundana.
“Por mares – cantou o poeta –
Nunca dantes navegados”.

Ari Donato | Salvador / 2021

Na ilustração, “Cristo na tempestade do mar da Galiléia”, óleo sobre tela, 1633, de Rembrandt van Rijn (1606-1669), 160 × 128 cm.

24.

Ah, seu amor ingênuo!
Enrosca-se em meu cabelo,
Deixa-me distônico.
Diz que é meu, sem sê-lo.

Ah, meu amor platônico!
Quer mais do que oferece,
É um neurastênico.
Sobrevive sem interesse.

Entre si tão distantes,
Ainda que a nós nos encante!

Ari Donato | Salvador / 2021

Na ilustração, “Carinho”, acrílica sobre tela, de Rose Fernandes.

23.

Quantos setembros,
Com os seus pedros;
Quantos novembros
E deodoros
São precisos
Terra brasilis.
Sejam forjados.
Até empunhar o fio
E desfraldar o brio.
Da Serra da Contamana
À Ponta Seixas;
Do Monte Caburaí
Ao Arroio Chuí.

Ari Donato | Salvador / 2021

22.

Até que se dissolva a tarde em seus matizes
E nos postes pululem lâmpadas elétricas,
A disputar, aqui, ali, com as estrelas:
Dos dois, qual o brilho à minha vista se impinge.

Inebriam-me os sentidos, todos embriagados
De tanto encanto embebido da sua auréola.
Enquanto seu corpo, no alto, como uma aréola,
Abre-se em flores e botões policromados.

Com seu manto de prata, na noite de gala,
A lua cheia pisa no palco do céu.
Nuvens brancas chegam para vestir-lhe um véu.
Maravilhada, do chão, aplaude minha alma.

As horas chegam e passam tais qual o soluço.
Borboletas e mariposas, decididas,
Voam, como os ases pilotos de esquadrilha.
Filhas noctívagas, saem no lusco-fusco.

Vão também velozmente pelo ar, noite afora,
Meus pensamentos e desejos. Meu amor.
A correção de rumo nunca é indolor.
Se resta vida a viver; a morte é sem hora!

Ari Donato | Salvador / 2021