24.

Ah, seu amor ingênuo!
Enrosca-se em meu cabelo,
Deixa-me distônico.
Diz que é meu, sem sê-lo.

Ah, meu amor platônico!
Quer mais do que oferece,
É um neurastênico.
Sobrevive sem interesse.

Entre si tão distantes,
Ainda que a nós nos encante!

Ari Donato | Salvador / 2021

Na ilustração, “Carinho”, acrílica sobre tela, de Rose Fernandes.

23.

Quantos setembros,
Com os seus pedros;
Quantos novembros
E deodoros
São precisos
Terra brasilis.
Sejam forjados.
Até empunhar o fio
E desfraldar o brio.
Da Serra da Contamana
À Ponta Seixas;
Do Monte Caburaí
Ao Arroio Chuí.

Ari Donato | Salvador / 2021

22.

Até que se dissolva a tarde em seus matizes
E nos postes pululem lâmpadas elétricas,
A disputar, aqui, ali, com as estrelas:
Dos dois, qual o brilho à minha vista se impinge.

Inebriam-me os sentidos, todos embriagados
De tanto encanto embebido da sua auréola.
Enquanto seu corpo, no alto, como uma aréola,
Abre-se em flores e botões policromados.

Com seu manto de prata, na noite de gala,
A lua cheia pisa no palco do céu.
Nuvens brancas chegam para vestir-lhe um véu.
Maravilhada, do chão, aplaude minha alma.

As horas chegam e passam tais qual o soluço.
Borboletas e mariposas, decididas,
Voam, como os ases pilotos de esquadrilha.
Filhas noctívagas, saem no lusco-fusco.

Vão também velozmente pelo ar, noite afora,
Meus pensamentos e desejos. Meu amor.
A correção de rumo nunca é indolor.
Se resta vida a viver; a morte é sem hora!

Ari Donato | Salvador / 2021

21.

O combate de Davi e Golias, do italiano Daniele da Volterra, pintura sobre ardósia, 1,33 x 1,71 m, 1550.

Da noite, a suave neblina
Desfaz-se, camarada.
Ínvido, o dragão torvo,
Das entranhas malfadadas,
Vomita sua bile fétida.
Aves de plumaço informe
E descoradas cores
Sobrevoam-lhe a cabeça.
E tudo se empesta!

Desembestada, a turba,
Agora, anseia por uma funda.
(…)

Ari Donato | Salvador / 2021

20.

Lá está o marinheiro,
De bamboleios no cais.
Alquebrado.
Aporta ali suas lembranças.
Que de tantas, escorregam
Ao costado.
Atira um olhar ao mar.
Como o grasnar da gaivota,
Acrobático.
Volta a vista ao velho barco,
Que do mastro arriam as velas.
Não há vento!

Torna à casa melancólico.
No horizonte, outra borrasca.
Que tormento!

Ari Donato | Salvador / 2021

19.

Perdoe-me não haver chegado antes;
E por todo o tempo distante,
Confuso – em procura alienante.

As flores agora exalam nostalgia!
Sem borboletas que – na regalia –
Esvoaçavam-se em estripulias.

Perdoe-me não haver chegado logo,
Para ouvir sua voz – seus rogos –
Afastar-nos desse desafogo.

Olho vasos de desânimo – que rego.
E já esverdeia o recomeço,
No corte de ramos do dessossego.

Ari Donato | Salvador / 2021

Foto Ari Donato – Trecho urbano da Estrada de Ferro Campos do Jordão – 2014.

18.

As estrelas tremulam.
São como olhos insones.
Se movemos o rosto,
Parece-nos que somem!
Da imensidão polvilham
Sinais, a perguntar:
– Mentes por convicção ou por não mais
Distinguires verdadeiro de falso;
Separares do limpo todo o turvo?

Ari Donato | Salvador / 2021

A noite estrelada, do artista holandês Vincent Van Gogh, óleo sobre tela, 73 x 92 cm, 1889.

17.

A palavra ultrapassa a mecânica
Representação do pensar humano.
Reúne a força do desejo, o poder da vontade.
Pois é divina!
A palavra dispensa a semântica,
Independe da fonologia; é anterior à sintaxe.
Manifestou-se durante a criação!
Ela é divina!
A palavra afastou as trevas,
Chamou a luz e o firmamento.
Ensinou as bem-aventuranças no Sermão!
Pois é divina!
A palavra traduz a fé.
Ela recupera e purifica,
Prega o amor e o perdão; curou o paralítico!
Ela é divina!

Feliz quem acredita na palavra
E dela faz uso em sacrifício.

Ari Donato | Salvador / 2021

A tela “O Sermão da Montanha”, do pintor norueguês Carl Heinrich Bloch (1834-1890).

16.

Deixo com você
As flores silvestres!
Perfumadas – diversas –
Tão singelas!
São como estrelas –
Estas exalam brilho
Nos campos celestes,
Aquelas cintilam seus dias.

[Ari Donato | Salvador / 2021]

Foto Ari Donato | Itapicuru – Guanambi | Março de 2020.

A borboleta!

Voando… Passa por mim a borboleta!
Se sabe que são curtos os seus dias,
São poucas minhas horas de alegrias.
Do tempo, somos grãos na sua ampulheta!
Mas voa… Asas abertas e sem medo.
Basta-lhe a infinitude da campina,
Para subir ao palco a bailarina!
Vem… Assenta na ponta do meu dedo!
Flutua… Doce perfume natural.
– Bebo goles de dores do meu graal.

[Ari Donato | Salvador / 2020]